Lavagem do Bonfim no século XIX

    Não se sabe, exatamente, quando aconteceu a primeira Lavagem, mas tudo leva a crer que o ritual teve início no início do século XIX. 
    Um dos mitos diz que a tradição nasceu de uma promessa de um soldado português que lutou na Guerra do Paraguai (1865-1870). Prometendo ao Senhor do Bonfim que, se voltasse vivo do campo de batalha, lavaria as escadaria da igreja em sinal de gratidão. 
    Carlos Ott, arqueólogo, antropólogo e historiadora baianista, afirma que a origem do evento antecede o ocorrido com o soldado, que em 1804, quando a Devoção do Senhor do Bonfim permitiu que devotas de São Gonçalo levassem a imagem do santo para a Igreja do Bonfim. O culto a São Gonçalo e a lavagem do templo, inspirados em tradições afro-brasileiras, cresceram além do esperado, incomodando a Devoção e a Igreja Católica. A dança de São Gonçalo, considerada imoral, era central nesse culto. Somente em 1918, que a Devoção do Senhor do Bonfim assumiu a organização da festa de São Gonçalo, a dança desapareceu das igrejas, mas a Lavagem persistiu como símbolo de purificação, lavar o santo para a festa em comemoração ao seu aniversário, mantendo raízes das tradições africanas.

    Lavagem da Igreja do Bonfim - Foto: Voltaire Fraga, 1950

   O foco aqui não é a origem do ritual pois é difícil ser comprovada por documentos, mas sim abordar o tema com mais detalhes.
    Havia rejeição por parte dos católicos, especialmente autoridades eclesiásticas, expressavam forte rejeição à prática de lavagem de igrejas devido à inclusão de elementos africanos, música, bebida e comida e bebida em abundância. "Louca banal, blasfêmia", "resquício de paganismo", de acordo com Maximiliano de Habsburgo (naturalista austríaco que visitou a Bahia em 1860), "abusos" e "espetáculo repugnante", palavras de Dom Antônio Luís dos Santos (arcebispo da Bahia de 1881 à 1890). 

    Proibição: A Lavagem do Bonfim enfrentou diversas tentativas de extinção, sendo proibida pelo arcebispo Dom Antônio Luís dos Santos em 1889, com o apoio da polícia. O arcebispo fundamentou a proibição na presença de praticantes do Candomblé, africanos e seus descendentes. Apesar da proibição da Lavagem, as mulheres continuaram a realizar o cortejo munidas com flores e água com cheiro, vassouras para lavar o adro e a escada da igreja, demonstrando persistência da devoção dos fiéis. A proibição foi obedecida em partes, eles não podiam mais entrar no templo, mas interdição não foi capaz de apagar o brilho, alegria e emoção de homenagear o Senhor do Bonfim e Oxalá na porta, no adro e no largo em frente ao templo. E o principal dia de festa continuou em plena expansão durante o século XX


Referência: IPHAN, p. 23-28, 2014.

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