Entrevista com fiel da Lavagem do Bonfim
Esta é uma entrevista com:
Kevin S. Gomes, nascido e criado em Salvador, atualmente médico em neurologia, formado pela Universidade Federal da Bahia.
transcrição:
Jennifer: Qual é a importância da lavagem para você? Qual o seu sentimento na lavagem?
Kevin: A lavagem para mim, tem um valor especial pelo sincretismo, pela mistura religiosa. Eu cresci em um ambiente majoritariamente católico, mas eu convivi e ainda convivo com pessoas de diversas religiões. Quem mora em Salvador, convive diariamente com pessoas de diversas religiões. Por mais que estaticamente tenha predomínio de uma religião A ou B, é uma cidade muito plural neste sentido, e a lavagem é um evento que representa e sintetiza isso, porque se você parar para pensar é uma devoção à um Santo de identidade católica, mas que tem também componentes de matriz africana junto. Então tem a fé cristã e a fé das diversas religiões de origem africana e você ver essa mistura em todo o cortejo é muito legal. É uma energia diferente, é o momento que você presencia paz, a paz entre as religiões, presencia o respeito mútuo. E a devoção de você passar pelo cortejo, pelo circuito, fazer a caminhada desde a primeira missa na Igreja da Conceição, em todo o trajeto a pé, e aí as pessoas têm diversas formas de ir, alguns fazem corrida, outros caminhada, outros vão com amigos, bebendo, comendo, se divertindo, outros acompanham fanfarras, pra chegar na Colina Sagrada e praticar a sua fé, amarrar a sua fitinha. Então pra mim, tem um valor especial por representar a cultura religiosa de Salvador, que é a mistura das diversas religiões que estão ali presentes, convivendo harmoniosamente em paz, pra mim isso tem valor muito grande e traz uma energia diferente para o cortejo.
Jennifer: A lavagem movimenta milhares de baianos e turistas. E eu gostaria de saber como foi a sua primeira experiência acompanhando o cortejo com milhares de pessoas?
Kevin: Eu acompanho a lavagem desde criança, pois meus pais têm o hábito e a cultura de irem sempre que podem para lavagem do Bonfim. E desde criança, eu estou indo. É um ambiente que eu tenho como rotina de todo ano de estar lá. Já sei exatamente os caminhos para chegar lá, seja de carro ou de ônibus, sei os caminhos da volta, que sempre tem aquele transtorno na volta porque a Igreja do Bonfim fica dentro de uma península, península de Itapagipe, que é onde tem a Ribeira e outros bairros dali, e a volta é sempre um pouco mais tumultuada por conta do trajeto do trânsito nas vias, pois não são muitas vias que saem da península, e com isso acaba tendo engarrafamento e tudo mais. Então até isso a gente já é acostumado, sabemos os horários para pegar menos trânsito, então, eu já tenho essa rotina de tudo a ser feito na Lavagem, por ser um hábito anual.
Eu não vou lembrar exatamente da minha primeira experiência, mas a que eu tenho viva na minha memória foi uma experiência muito boa de você estar ali no meio do povo, até parece um ambiente de carnaval, mas você está ali em reverência à uma fé. E a sensação que eu tive naquela primeira vez e todas as outras até hoje, é a de sempre estar renovando a crença e ao mesmo tempo renovando os pedidos. É como se a lavagem fosse uma promessa que você está fazendo para ter a recompensa daquele pedido que você está fazendo ou que deseja fazer, ou o contrário, você tá fazendo aquele caminho a pé para pagar promessa de algo que você já pediu antes e se realizou, se cumpriu, entende? Então essa energia é muito interessante de estar praticando anualmente, como eu falei na primeira pergunta, a energia é surreal, é um clima muito bom, principalmente quando você vai acompanhado, faz o caminho, bebendo ou não bebendo, acompanhando ou não fanfarras, enfim, é tudo muito legal e um ambiente muito bom. Então desde novo eu tive essa experiência positiva e desde então só tenho elogios e relatos bom a falar desse cortejo.
Jennifer: Você sugere que pessoas não religiosas também participem?
Kevin: Como eu havia dito, lá é um ambiente muito positivo e acredito que o ponto mais forte da Lavagem é justamente o sincretismo e a convivência pacífica entre as diversas religiões, é muito curioso e interessante a gente ver que no mesmo cortejo tem pessoas de várias religiões, tem pessoas que não tem religião e que estão pelo ambiente, justamente. Então é como falei, parece um pouco com o clima do carnaval, o fato de você ter essa energia positiva, de pessoas pensando no bem, querendo bem e conviver harmoniosamente pessoas que diversas religiões, ou até que não tem religião faz com que as pessoas queiram estar ali, pela energia de pertencimento à Salvador, Bahia, pela nossa baianidade. E eu sinto que pertencimento leva as pessoas estarem ali.
Então é óbvio que eu sugiro que pessoas não religiosas estejam ali também, e um fato curioso é que pessoas evangélicas, que tem um tabu muito forte de falar de religiões como o catolicismo, umbandistas e do candomblé e mesmo assim você vê muitos evangélicos lá, mesmo tendo essa “rixa”, entre aspas, eles estão juntos, seguindo o mesmo roteiro, a mesma tradição, e isso é muito legal, é uma energia muito boa que possibilita essa reunião entre as pessoas. Então sem dúvida, eu recomendo que pessoas não religiosas participem para sentir a energia do cortejo, que é algo surreal. E eu recomendo que façam o cortejo original, saindo da Igreja da Conceição, indo a pé, se possível, acompanhar algum bloquinho de fanfarra ou ir acompanhado de algum amigo e chegar até a Colina, subir a Igreja do Bonfim, pra poder acompanhar do início ao fim, e entender todo esse processo.
Jennifer: Como você descreveria a atmosfera e a energia durante a procissão e a lavagem das escadarias do Senhor do Bonfim?
Kevin: A lavagem das escadarias acontece bem cedinho, pois quando começa o movimento, não tem espaço para lavarem o espaço, de fato. E todo o cortejo acaba sendo mais o processo da primeira missa na primeira igreja, a caminhada de uma igreja a outra e a chegada na segunda igreja para uma nova missa, para renovar a fé com a fitinha e tudo mais, mas mesmo com a lavagem no início de manhã, às cinco ou seis da manhã e mesmo toda essa procissão tem uma energia muito boa, que é a energia da paz, acredito que eu posso simbolizar todo o cortejo com essa palavra, paz. Irei repetir isso nas respostas porque é algo realmente surreal, a paz e a convivência pacífica de pessoas de culturas diferentes e pensamentos diferentes, religiões diferentes, principalmente no mundo em que estamos vivendo hoje, de conflitos religiosos, de pessoas se matando, de pessoas se odiando, de pessoas praticando a intolerância religiosa, por ignorância, por desconhecimento, por querer estar com a resposta correta, por querer estar acima do outro, e nesse contexto que o mundo está vivendo, você ir para um evento numa cidade altamente religiosa, ir para um evento que você vê religiões que estão se bicando, estarem juntas, sorrindo e convivendo pacificamente, harmoniosamente e felizes é surreal. Isso é algo que só a pessoa estando lá para sentir e entender a magnitude e a riqueza dessa energia, porque realmente algo fora de série, é pena que muitas vezes a gente não vê isso no dia a dia, né? A gente acaba tendo que ver em um evento, mas é muito bom as pessoas estarem lá, porque as pessoas que vão, elas meio que se tornam propagadores dessa energia, né?! Você presencia que a energia e quer que essa energia seja transmitida para o seu dia a dia, então isso renova a sua mentalidade de querer ver essa energia harmoniosa e pacífica também no dia a dia, eu acho que vale muito a pena instalar, vale muito a pena ir, e acho que dificilmente vai ter outra igual no mundo que consiga reunir tanta gente diferente, com tanta energia boa, e com tanta paz no mesmo lugar.
Jennifer: Puxando o gancho que você falou das fitinhas até me fizeram pensar: As fitinhas representam algum significado para você? Já fez pedidos ao amarrar as fitinhas?
Kevin: As fitinhas simbolizam a promessa. A fitinha é usada por muitos como símbolo para pedir e fazer tal promessa, as fitinhas são coloridas porque cada cor representa um orixá diferente. A tradição da fitinha é fazer três nós, e cada nó representa um pedido, e você carrega essa fita até realizar o pedido, e se quiser renovar, só amarrar mais outra fitinha.
E sobre os pedidos, eu já fiz diversos. Quando adolescente e era tímido e gostava de uma moça, pedia para ela me notar, mais velho, pré-vestibulando, pedia para entrar na faculdade, depois formado, pedia para passar na prova de residência médica, sou torcedor do Bahia, naturalmente tenho meus rituais e simpatias, peço pelo fim da descriminação, peço por um mundo mais justo. Enfim, então eu já fiz diversos pedidos, uns se concretizaram outros ainda não, mas o importante pra mim foi a renovação da fé naquele momento e a esperança.
Jennifer: Por fim, na sua opinião, a Lavagem do Bonfim contribui para fortalecer o senso de comunidade e identidade cultural entre os baianos?
Kevin: Como eu já havia comentado, essa energia em Salvador historicamente ela tem diversas origens étnicas. Os indígenas que já moravam aqui antes, os povos originários antes da chegada dos portugueses, e eles trazendo pessoas de outras regiões da Europa querendo colonizar e trazendo os escravos de diversas origens da África, e essa mistura dos três povos fez com que Salvador tivesse diversas culturas num lugar só e essa mistura cultural é muito interessante, porque você ver isso na culinária, você ver isso no dia a dia das pessoas, nas vestimentas, nas músicas. Salvador é referência musical, é uma cidade que exporta muita gente boa da MPB, rock, pagode, samba, estilos musicais completamente diferentes, fazendo alusão ao que eu falei da religião, alguns inclusive não se dão em outros lugares, isso também é reflexo da nossa origem social étnica.
E a Lavagem do Bonfim acaba sintetizando isso na parte religiosa, ela é um grande símbolo cultural de Salvador, que simboliza essa mistura, né?! E talvez a mensagem que ela passa de paz de mostrar que sim, pessoas de opiniões diferentes podem estar presentes no mesmo ambiente. Essa é a grande mensagem da Lavagem do Bonfim, e esse sentimento de nós soteropolitanos que participamos e conhecemos bem a lavagem é o que nos leva a querer estar todo ano lá, o senso de pertencimento a um lugar, o grande símbolo de pertencimento a Salvador além do carnaval é a Lavagem do Bonfim, que nos leva a querer estar lá, então isso com certeza contribui bastante para esse senso de comunidade, de identidade entre nós baianos, principalmente soteropolitano, eu vou destacar Salvador em si, pois esse é um grande símbolo da cidade. Mas sem dúvida esse evento é um símbolo da Bahia, e novamente, ele fortalece bastante o nosso senso de identidade.


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